Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de um amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.
Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade...
Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto - eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.
Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera.Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.
Data dessas férias...É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia... Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.
(Clarice Lispector)
Giz Branco e Cadeiras Vazias
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
sábado, 30 de julho de 2011
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."
Ah, se eu pudesse te transmitir a lembrança só agora viva, do que
nós dois já tivemos sem saber. Queres te lembrar comigo? ...
Oh, sei que é difícil: mas vamos para nós. Em vez de superar-nos.
Não tenha medo agora, está a salvo porque pelo menos já
aconteceu, a menos que vejas perigo em saber que aconteceu.
È que, quando amávamos, eu não sabia que o amor estava
acontecendo muito mais exatamente quando não havia o que
chamávamos de amor. O neutro de amor, era isso o que desprezávamos.
Estou falando é de quando não acontecia nada, e a esse não acontecer
nada, chamávamos de intervalo. Nos intervalos que nós chamávamos
de vazios e tranquilos, e quando pensávamos que o amor parara...
Cada palavra nossa no tempo que chamávamos de vazio cada palavra era tão
leve e vazia como uma borboleta: a palavra de dentro esvoaçava de encontro
á boca, as palavras eram ditas mas nem as ouvíamos. Mas na verdade como dizíamos!
Dizíamos o nada. No entanto tudo tremeluzia como quando lágrimas grossas não se
desprendem dos olhos; por isso tudo tremeluzia. Nesses intervalos nós pensávamos
que estávamos descansando de um ser o outro. Na verdade era o grande prazer
de um não ser o outro: pois assim cada um de nós tinha dois. Quando acabasse
o que chamávamos de intervalo de amor; e por que ia acabar?(Isso é inegavelmente
uma verdade contraria a nossa palavra.)
Pesava trêmulo com o próprio peso de seu fim já em si.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
"Não sei quantas almas tenho. "
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
(Alberto Caeiro)
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
(Alberto Caeiro)
"Começo a conhecer-me. Não existo."
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.(Àlvaro de Campos)
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.(Àlvaro de Campos)
sexta-feira, 13 de maio de 2011
"A Amizade consegue ser tão complexa deixa uns desanimados outros bem felizes, é a melhor alimentação dos fracos e o reino dos forte."
...Não há uma combinação de palavras que poderia descrever um sentimento indestrutível como esse.Poderia usar todas as combinações de frases feitas e ainda assim, não seria o bastante pra classificar alguém que como ninguém me conhece, que consegue adivinhar o que desejo, penso e necessito. Alguém que suporta todas as minhas mudanças de personalidade.
É algo tão completo, e magnético que quase não cabe nas entrelinhas, algo que é impossível descrever... Ilegível
É estranho conhecer a mim mesma em outra pessoa, ás vezes chega a ser assustador.
Nossas almas eram neutras, até que nos conhecemos e nossas vivências passadas foram compartilhadas em uma comunhão perfeita!
É isso, uma comunhão, um conjunto de sentimentos e fantasias que determinam nossos comportamentos, uma junção do que há de melhor em nós.
Gostaria de abrandar nossas partes favoritas, talvez assim poderíamos esquecer o sofrimento que foi cair na realidade de alguns pontos. Mas a dor que no momento parecia irrevogável agora é branda, em minha existência a única verdade absoluta.
É algo tão completo, e magnético que quase não cabe nas entrelinhas, algo que é impossível descrever... Ilegível
É estranho conhecer a mim mesma em outra pessoa, ás vezes chega a ser assustador.
Nossas almas eram neutras, até que nos conhecemos e nossas vivências passadas foram compartilhadas em uma comunhão perfeita!
É isso, uma comunhão, um conjunto de sentimentos e fantasias que determinam nossos comportamentos, uma junção do que há de melhor em nós.
Gostaria de abrandar nossas partes favoritas, talvez assim poderíamos esquecer o sofrimento que foi cair na realidade de alguns pontos. Mas a dor que no momento parecia irrevogável agora é branda, em minha existência a única verdade absoluta.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
O que é de mim?
...De mim?
nada!
E quanto terei de ser farsante por ti ?
O quanto terei de me proclamar alguma coisa, para alguma coisa veres em mim? E então, quando conseguires, serei feliz!?
Isso não deveria me bastar pois, depois de veres alguma coisa em mim...
Será um clímax deposto. E então?
Algum ato seria posto?
Provavelmente, e o depois? Bem... é só um oco nada!
E isso no entanto, se conseguires...
Pois não tenho certeza, nem sei se queria ter. Cobra-se muito depois de ver alguma coisa, Sabia? ... Ah, quão apavorada tú me deixas, vivo contigo me desfiando em dúvidas, pois é meu enigma maior... Desejo a ti o equivalente á ti. Sei que, se chegar lá, não será o bastante. Mas até lá saberei querer outra coisa de ti. E tú? O que queres de mim?
Diga me...
Dei-me um motivo a mais para querer-ti.
nada!
E quanto terei de ser farsante por ti ?
O quanto terei de me proclamar alguma coisa, para alguma coisa veres em mim? E então, quando conseguires, serei feliz!?
Isso não deveria me bastar pois, depois de veres alguma coisa em mim...
Será um clímax deposto. E então?
Algum ato seria posto?
Provavelmente, e o depois? Bem... é só um oco nada!
E isso no entanto, se conseguires...
Pois não tenho certeza, nem sei se queria ter. Cobra-se muito depois de ver alguma coisa, Sabia? ... Ah, quão apavorada tú me deixas, vivo contigo me desfiando em dúvidas, pois é meu enigma maior... Desejo a ti o equivalente á ti. Sei que, se chegar lá, não será o bastante. Mas até lá saberei querer outra coisa de ti. E tú? O que queres de mim?
Diga me...
Dei-me um motivo a mais para querer-ti.
Assinar:
Comentários (Atom)