Ah, se eu pudesse te transmitir a lembrança só agora viva, do que
nós dois já tivemos sem saber. Queres te lembrar comigo? ...
Oh, sei que é difícil: mas vamos para nós. Em vez de superar-nos.
Não tenha medo agora, está a salvo porque pelo menos já
aconteceu, a menos que vejas perigo em saber que aconteceu.
È que, quando amávamos, eu não sabia que o amor estava
acontecendo muito mais exatamente quando não havia o que
chamávamos de amor. O neutro de amor, era isso o que desprezávamos.
Estou falando é de quando não acontecia nada, e a esse não acontecer
nada, chamávamos de intervalo. Nos intervalos que nós chamávamos
de vazios e tranquilos, e quando pensávamos que o amor parara...
Cada palavra nossa no tempo que chamávamos de vazio cada palavra era tão
leve e vazia como uma borboleta: a palavra de dentro esvoaçava de encontro
á boca, as palavras eram ditas mas nem as ouvíamos. Mas na verdade como dizíamos!
Dizíamos o nada. No entanto tudo tremeluzia como quando lágrimas grossas não se
desprendem dos olhos; por isso tudo tremeluzia. Nesses intervalos nós pensávamos
que estávamos descansando de um ser o outro. Na verdade era o grande prazer
de um não ser o outro: pois assim cada um de nós tinha dois. Quando acabasse
o que chamávamos de intervalo de amor; e por que ia acabar?(Isso é inegavelmente
uma verdade contraria a nossa palavra.)
Pesava trêmulo com o próprio peso de seu fim já em si.